à passos largos (registro de memória)
Eu caminhava na rua com a minha esposa, no pé um tenis velho, as nossas mãos dadas, quando apressamos os passos. Eu sugeri que soltássemos as mãos, já que precisaríamos de mais espaço para balançar os braços, dado a mudança de ritmo das passadas. Senti um olhar gélido de desaprovação. Recolhinos ombros. Ufa! Continuamos a caminhada.
À nossa frente, cortando a paisagem, no cruzamento das vias, um homem caminhava. A sua cabeça estava inclinada para trás, o queixo levemente erguido sustentava um singelo sorriso. A sua expressão transmitia alegria. Um sorriso congelado estava em seu rosto. Atrás dele, uma menininha o seguia com movimentos de dança. Girava e saltitava, girava e saltitava de novo.
Olhei a cena e fui fisgado pelo encanto daquilo que via. A menininha percebeu a nossa presença, mas não se intimidou. Continuou a girar, a saltitar... será que era balé ou puro improviso? Eu não entendo de dança. Ela tinha uma leveva em cada passo, e uma inocência de anjo. Só sei que estava cativado com aquela cena: um homem feliz sendo seguido por uma dançarina, cruzando a paisagem.
Terminou quando eles seguiram reto e, a minha amada esposa e eu, dobramos à direita. Isso só acontece quando estou com a minha esposa. Quero dizer que acabo notando o mundo de outra forma. Percebo o mundo de outra forma ao lado dela. Como se fosse mágica.
Puxa vida! Um bailarina rodopiando na rua. E um possível pai ou irmão mais velho sorrindo despretenciosamente à frente com passos largos. Seguiram o seu rumo.
Já faz uns quatro dias que isso aconteceu. Valeu à pena sair naquela noite para caminhar.