Evandro Maia Neves

Diálogo no Supermercado

Eu gosto demais de encontros ocasionais, por mais simples que seja, se for positivo de alguma forma, e se gerar conexão, é melhor ainda.

Na entrada do Supermercado havia muita gente e pouco espaço. Os corredores estavam tumultuados e o vai e vem das pessoas estava caótico. Pessoas falavam e reclamavam. O barulho das vozes causava tontura e confusão para quem não gosta de ambientes em desordem ou com informações demais.

Eu estava estagnado. Na minha frente havia uma senhora pilotando um carrinho de supermercado. Ela se movia lentamente no congestionamento típico dos corredores lotados.

Parado, aguardando pela minha vez, eu não esperava começar uma conversa ali. As pessoas não costumam conversar com estranhos. Mesmo assim, subitamente uma voz aguda começou a me explicar algo. "Eu costumava comprar muita ração. Isso foi antigamente quando eu tinha um cachorro grande. Ele em pé, era quase da altura do meu filho", a voz dizia para mim.

Eu olhei para o meu lado esquerdo e para baixo. Ali estava uma senhorinha de cerca de oitenta a noventa anos. Ela iniciou a conversa e eu senti aquele aconchego de vovó parado bem ali ao meu lado. Senti uma vontade de ouvi-la.

Ela disse que tinha um cachorro chamado Maxuel. Ele havia, nas palavras dela, "morrido de paixão"; ele morreu apaixonado pela dona ausente que precisou viajar para tratar alguma enfermidade por um longo período.

Ela me contou que o Maxuel era um cachorro realmente grande que ganhara do filho. Ela quis me dizer a raça, mas por mais que se esforçasse, não conseguiu se lembrar. Porém, orgulhosa, garantiu que era de raça.

Ela, então, começou a olhar ao redor buscando pela filha. Disse que não queria que demorasse. Retornou a sua atenção a mim e continuou a dizer sobre como o cão foi amado e que nunca mais teria outro cachorro, pois ainda fazia o seu tratamento em outra cidade.

Após me contar a sua breve história, uma pausa surgiu. Eu sei que, principalmente em conversas informais e ocasionais como aquela, o silêncio não é problema. Problema seria forçar preencher a lacuna com frases aleatórias.

Finalmente, a filha dela apareceu no momento da pausa reflexiva de nossa conversa. Eu fiquei feliz com a conversa. Achei que não nos despediríamos, pois não havia vínculos nem necessidade de despedidas. Não. Mas, gentilmente aquela senhorinha olhou para mim e disse "tchau". A filha me olhou para ver a quem a mãe tinha se dirigido e acenou para mim com um sorriso no olhar.

Algumas pessoas idosas gostam de contar sua memórias. Uma ou duas do seu arsenal, aquelas guardadas no baú de suas mentes. Elas relatam coisas pessoais, assim como os blogueiros costumam fazer. Para mim, foi um privilégio poder ouvir de uma senhora tão gentil uma história na fila do supermercado.