Saudades do meu pai
Sempre tive esperanças de que o meu pai fosse ser curado do câncer. A cura física não veio. Mas a cura espiritual, que é mais importante, sim, pois ele nunca perdeu a fé. E o que ficou foi a saudade. Há mais de dois anos, o meu pai vinha lutando contra o câncer de próstata. Nesse tempo, ele passou por diversas etapas e mudanças notáveis no cotidiano, no humor e na vida de forma geral. Não vou detalhar, mas a luta diária contra a doença teve seus altos e baixos.
Eu sou um homem de 35 anos; mesmo assim, ele cuidava de mim e me tinha como uma eterna criança sob seus cuidados paternos (e não me envergonho disso!). Porque na vida eu fui o seu eterno ajudante. Quando ele fazia alvenaria, carpintaria, mecânica automobilística, instalações elétricas e tantas outras coisas, eu fui o seu braço direito. Ainda que o meu pai me visse como uma criança, ele sempre me ensinou a pisar com meus próprios pés e a traçar o meu caminho de forma distinta da dele. Ele me mostrou tantas vezes a realidade da vida com o intuito de me preparar e me ensinar a lidar com os obstáculos diários. Hoje faz onze dias de sua partida, e a falta que sinto do meu pai é gigantesca – que não cabe na casa dele. A minha mãe precisa de constante motivação para não se sentir triste. Graças a Deus, tenho uma esposa maravilhosa que nos ajuda a encontrar forças nesses dias difíceis. A família e os amigos têm sido uma bênção também. O apoio fraterno, com certeza, é uma dádiva do Todo-Poderoso.
Com a partida do meu pai, que agora dorme o sono dos santos do Senhor, eu percebi que preciso sonhar mais. Pois é certo que, no luto, temos constantes reflexões sobre a vida que em dias de bonança não nos sobrevêm – a isso chamamos de sabedoria. Digo isso porque eu sempre sonhei em participar de um rally com o meu pai. Ele seria o piloto e eu, o seu navegador. Depois que cresci, deixei tal sonho de lado, mas nunca o desejo. Dediquei-me a outras coisas e quase não toquei no assunto, com raríssimas exceções. Queria ter trabalhado mais com o meu pai, me aventurado mais com ele. Agora, sou o homem da casa. Tenho que cuidar da minha esposa e da minha mãe. O amor e a admiração que sinto por ele me darão forças e me farão mais sábio para cuidar da minha família. Quero sonhar mais para realizar mais sonhos. Sei que nem todos serão realizados, mas não deixarei de sonhar. Então manterei um saldo positivo de realizações com a minha família.
Uma coisa desconfortável se repetiu. Em pouquíssimo tempo, tive a péssima experiência de ouvir dos médicos que meu filho estava respirando e sobrevivendo graças aos equipamentos modernos da medicina, mas que ele apenas tinha suas dores amenizadas e que logo nada poderia ser feito. Um ano depois, a mesma explicação médica me veio sobre o meu pai. Isso é terrível. O que me consola é saber sobre a promessa de Jesus de que os santos que dormem no Senhor logo ressuscitarão para a vida eterna. E assim, poderei abraçar tantos queridos que agora dormem.
O vazio enorme que ficou no peito nunca será preenchido. No entanto, serve para a minha própria reflexão: nada nesta vida é eterno. Cada minuto importa, cada ente querido deve ser cuidado; e os sonhos precisam coexistir para dar um combustível a mais nas relações humanas.